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sexta-feira, 2 de março de 2018
POEMA DE CINZA CHUMBO
I
O pai ousou gritar nos dias cinzas de chumbo
A mãe rodava panfletos num velho mimeógrafo estéril
Nada entendíamos
Cantávamos tristes canções entre os ciprestes e as sombras.
II
Os mortos insepultos são partes da paisagem
Estão ali nas escadas
Emparedados naquele mar
Seus gritos tangem o fosso - precipícios
enferrujados elevadores do centro,
desvalidas memórias amputadas.
III
Na vala comum desses dias - ossos de um país moribundo
Rescaldos de versos enlameados
No chão que é de poucos
No mausoléu de granito o ditador com honras apodrece
Comunga avenidas e praças de desatada sangria
IV
O pai tecia longos poemas sobre a revolução
A mãe espreitava as frestas do fim do mundo
Nada entendíamos
Dormíamos entre as lápides quebradas da tarde.
domingo, 2 de julho de 2017
4 Cenas Do Cão Andaluz
I
por que um cão sangrento
atravessa-nos à noite
e reduz a lua com
seu brilho no esgoto
numa parca brancura
disforme moldada
ou uivo do mau agouro
encarcerado/ sombra des-
fragmentada num osso
de nossa própria (in) existência
as vísceras repugnantes
à mostra para consumo
da matilha e suas fartas mandíbulas.
II
o ventre exaurido do parir eterno
constante:
palavras, palavras, versos
desarticulados/ disformes
e tão orgânicos.
III
costumeiramente rasgados
no cordão arrancado
com navalha fria, afiada
bem trabalhada.
IV
no rescaldo de tudo
o cão - o grito
se deita - carne viva
restos de pelagem
moldura mórbida estática
da sala de jantar imponente
com seus móveis discretamente apoiados
em calços vermelhos e
nas sombras tortas desfocadas
de todos aqueles animais mortos
da família - empalhados
o sangue que ainda respinga
pisado.
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quinta-feira, 28 de julho de 2016
RESENHA EM MALLAMRGENS
A resenha feita pelo jornalista Jesse Navarro sobre o livro
Aprendizagem Cinza (Editora Patuá - 2016) no excelente
site Mallamargens:
sábado, 23 de julho de 2016
RESENHA DE APRENDIZAGEM CINZA, PELO JORNALISTA JESSE NAVARRO
POESIA
São Paulo a sangue frio na estreia de Leandro
Rodrigues
Por Jesse Navarro
“Aprendizagem Cinza” (Editora Patuá, 2016) é o
livro de estreia do poeta paulista Leandro Rodrigues. Trata-se de um conjunto
de poesias que mostram o lado realista e denso da capital de São Paulo. Uma
verdadeira viagem sangrenta e real pelos cantos da cidade mais rica do Brasil.
O livro já começa com o misterioso título “São Paulo IX”, Concretismo puro.
Em “São Paulo IX”, Leandro Rodrigues roteiriza
o que nunca seria dito por um apresentador de programas policialescos, apesar
do assunto ser um crime passional. É mostrada uma visão de quem está atrás das
lentes em ritmo de cinema noir.
Em “Astraçã”, vemos um show de vogais que não
são apenas vegetativas. São vogais que mostram aquela capital do turista
(francês, será?), aquele que usa uma bússola e morre. Em cada verso se faz
presente a arquitetura pós-moderna que só São Paulo tem. Prédios triangulares,
assimétricos, ruas escuras onde o cotidiano mostra sua face: decomposta,
criminosa, real como só o sangue de um poeta pode ser.
É uma São Paulo onde até Bukovski aparece. Ele
mesmo, o norte-americano velhaco, o famoso poeta das mil garrafas de Bourbon.
Na poesia, o gênio vomita e enfrenta o aço de Sampa. Temos aqui uma linguagem
não-linear, onde o cinza do título mancha todas as ruas da cidade em pleno
século XXVIII. Vira chumbo, lixo, miséria, uma realidade cinzenta como nem o
mais pessimista poderia imaginar. A chacina prossegue em “São Paulo V”: aquele
mesmo sangue que os mais velhos espremeram nas antigas páginas do jornal
Notícias Populares. O poeta se indigna diante um crime passional e
entrega o que chama de linguagem publicitária. Os números vão crescendo ao
mesmo passo do lixo, da miséria, da hecatombe visionária. O poeta insatisfeito
aumenta o caracter da letra, dando o efeito visual que desconstrói o
sangue reciclado. Os rios Pinheiros e Tietê são desmascarados como desova de
defuntos, um cenário onde o velho Buk, o bêbado escritor, certamente pensaria
em se jogar, bradando: “preciso resgatar minha garrafa!”.
A poesia que puxa para a antiga forma de
Literatura é justamente onde o poeta se enterra: “Soneto à cidade de São
Paulo”. Não satisfeito na condição de morto, ele dança com defuntos numa
perigosa valsa que não perdoa nem Mário de Andrade. E quem será o Urubu-Rei que
voa entre escombros, farpas e estilhaços? A cidade dos travestis que têm faca
entre os dentes, cortando a noite em mil palavras. Então temos mais do que a
modernidade, temos os primórdios do século XX em São Paulo de 1937, 1910, 1915
(a melhor peça do livro, que dá voz aos cavalos), até o sangue impiedoso nas
roupas do varal de 1918.
Não se trata de obra recomendável para
deprimidos: é veneno que escorre pela boca, sangue que esparrama até no poema
da tarde, um caleidoscópio onde podemos ver Lorde Byron, Zé do Caixão, Buñuel,
todos esqueletos nas ondas do mar. Hilda Hilst aprovaria esse livro, certamente
colocaria na sua estante entre os favoritos. Eis uma poesia gótica, misteriosa,
profunda, enigmática, sangrenta, terrível. Rara na atual geração.
Até Drummond é revisitado, sempre gauche. O anjo é o próprio
poeta que não dá a mão para si mesmo no espelho, apenas franze a testa. Tão
surreal quanto o barulho de um jasmineiro que, pasmem, “no seu barulho aponta
um cifrão”. Não falta também o lado musical de Leandro: a letra “Memória
dissoluta” fez parte da sua passagem por bandas importantes nos anos 90, como
Onírico e Redator S/A.
Difícil escolher a melhor poesia, mas
certamente “Semiótica” vai além do conceito de Marshall McLuhan. Não temos aqui
nem o meio, nem a mensagem. Temos um par de olhos dentro do mais surreal dos
copos da Língua Portuguesa. O livro que ficou na estante passa a
assombrar o “homem de papel”. O habitante da bruta capital, perdido em becos,
uma hora vai até os rios. E até lá acha a morbidez de mortos afogados que
continuam nadando. Há também espaço para pássaros, raras figuras que não
sangram em “Aprendizagem Cinza”. O poeta, que é um professor da Língua
Portuguesa, mostra habilidade verbal em “Vapor Barato”, título que alude a
famosa música de Jards Macalé e Waly Salomão: “Lentas horas / só meu coração /
e va po ra”.
“A golpes de martelo” ficou consagrada no
programa “Estúdio Blen Blen Entrevista” na internet. Um piano segue o compasso
da narração, a poesia concreta se assume no estilo que consagrou os irmãos
Campos e Décio Pignatari nos anos 50. “Aprendizagem Cinza”, o livro, é uma
estreia pesada, realista, sem gracejos ou romantismos. Além de ser boa leitura,
é também uma aula para novos poetas. Que venha o novo.
terça-feira, 21 de junho de 2016
SÃO PAULO VIII
Cinzas horas que se movem
Nos lentos relógios
do centro
os prédios são ponteiros
as sombras demarcam segundos
A fuligem extrema - extensa
pinta a tarde a óleo
Alguns esboços se perdem imprecisos
nos resíduos que escorrem
em canos despidos dejetos
des pe ja dos
no pôr-do-sol
O medo é feito de um céu
aberto
onde nenhuma lua
se posiciona
As tintas vazadas são frias
e distorcem quadriláteros descascados / aflitos
concretudes diagonais e pontiagudas
revestidas armas apontadas para o silêncio.
1930
Entre becos e bondes
A expressionista sombra disforme
Do homem pouco
que se debruça no parapeito
Do sombrio edifício Paramount
transeuntes se nivelam no asfalto
vidraças sujas de poeira amanhecem,
enclausuradas mulheres folheiam dispersas
revistas tristes
.................................................................
Um novo governo se anuncia.
..................................................................
no subúrbio mais distante
cabras pastam no lodo.
PRIMAVERA
Sangrar como a tarde
em remorso
e suas convulsões
- Já não encontramos mais
nenhuma veia!
Em tudo o cheiro forte
de formol.
É tarde entre flores.
Setembro se aproxima.
Um ou outro pássaro pousa
nas pilastras térreas do necrotério.
SÃO PAULO I
Com cheiro de tétano
e chumbo
os cadáveres estão expostos
na noite
São Paulo faz as estatísticas
de seus mortos
88% negros, 10% pardos,
2% brancos
100% pobres.
sexta-feira, 24 de julho de 2015
MALLAMARGENS
Alguns poemas selecionados e publicados na ótima Revista
de Poesia Mallamargens, sob o título:
O voo, o corte e o olhar na poesia de Leandro Rodrigues.
Grato a todos de MALLAMARGENS:
1. Das Origens
2. Poda
3. Afiações Da Lâmina
4. Semiótica
5. Sufocado
Segue o link abaixo:
http://www.mallarmargens.com/2015/07/o-voo-o-corte-e-o-olhar-nos-poemas-de.html
terça-feira, 14 de julho de 2015
quarta-feira, 24 de junho de 2015
SÃO PAULO IX
Na cinzentude opaca
de fuligem e concreto armado
estilhaços - espaços entre as grades
fragmentos e frestas
o grito
que vem das galerias
de esgoto e escorre
entre o rio que não
é rio
e a revolta represada
na merda.
]
Três tiros bastaram
para sangrar essa lua
para estancar esse medo
para escorrer o óleo diesel
do olhar lacrimejante
da moça bem vestida da Consolação.
]
Três golpes frios - lâmina branca
para jorrar ladeira abaixo
todo esse lixo de plástico descartável
- biodegradável
Todo esse caráter artificial
mais valia $ $ $ $
com gosto de opressão
(os subúrbio pulsam)
]
Na cidade mais podre/
em putrefata simetria
(de chumbo)
[
Três tiros bastaram
para apagar de vez esse lirismo doente,
doentio,
semi-morto.
quarta-feira, 27 de maio de 2015
AFIAÇÕES DA LÂMINA
I
É rápido o golpe
O fracasso
A simetria fria
da dor
O novelo desfeito
O relógio que ousa
girar seus ponteiros
ao contrário
A nuvem que paira
cinza cor de chumbo
e encobre a paisagem
bucólica - anônima
É solitária a agonia
a chuva, a ausência da palavra
[ precisa
a intraduzível morbidez
do todo
um jardim e seus canteiros
em cores vivas.
II
É solitário o golpe
a imprecisão
da dor fria
cinza - do todo
O relógio desfeito
O novelo que ousa
desfiar-se ao contrário
- intraduzível morbidez
[ que paira
palavra de chumbo,
paisagem precisa
que encobre um jardim
anônimo - bucólico
É rápido o fracasso
em vivas cores,
a ausência da simetria
fria - chuva e agonia
como a girar
seus ponteiros
de nuvem.
segunda-feira, 25 de maio de 2015
segunda-feira, 27 de abril de 2015
quarta-feira, 16 de outubro de 2013
SEMIÓTICA
Mário Peixoto - 1931 - Limite
Aos poucos eu olho a manhã
Com o canto do olho
esquerdo
o direito mantenho
fechado
E o dia segue estreito/abstrato
tapa-olho, meia visão
De noite retiro os dois olhos
e os ponho num copo
E enxergo toda a escuridão.
Aos poucos eu olho a manhã
Com o canto do olho
esquerdo
o direito mantenho
fechado
E o dia segue estreito/abstrato
tapa-olho, meia visão
De noite retiro os dois olhos
e os ponho num copo
E enxergo toda a escuridão.
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